Nos últimos anos, os fundos de investimento especializados em crédito estressado consolidaram-se como um dos segmentos de maior crescimento dentro da indústria de gestão de ativos no Brasil. Felipe Rassi, especialista jurídico com atuação no mercado financeiro, acompanha a evolução desse mercado e identifica nas mudanças regulatórias e no cenário macroeconômico os principais fatores que impulsionam a expansão dessa classe de ativos. A combinação entre o volume expressivo de carteiras inadimplentes no sistema financeiro nacional e o amadurecimento dos instrumentos jurídicos e financeiros disponíveis criou um ambiente favorável para a estruturação e operação de fundos dedicados à aquisição e gestão de créditos estressados.
O universo dos fundos de crédito estressado abrange diferentes estratégias de investimento, que variam conforme o perfil de risco, o horizonte de retorno e o tipo de ativo adquirido. Existem fundos focados exclusivamente na aquisição de carteiras de NPL de varejo, outros especializados em crédito corporativo estressado, e ainda veículos que combinam estratégias de compra de dívida com participação ativa em processos de reestruturação ou recuperação judicial das empresas devedoras. Cada abordagem implica um conjunto distinto de competências técnicas, processos de análise e instrumentos jurídicos necessários para a execução eficaz da estratégia.
Qual é o arcabouço regulatório que governa os fundos de crédito estressado no Brasil?
A regulação dos fundos de crédito estressado no Brasil envolve principalmente a CVM, o Banco Central e as regras específicas aplicáveis a cada tipo de veículo de investimento. Os FIDCs, regulamentados pela Resolução CVM 175, são frequentemente utilizados como estrutura para a aquisição de carteiras de NPL, pois permitem a compra de direitos creditórios originados por diferentes tipos de cedentes. Conforme indica Felipe Rassi, a flexibilidade estrutural do FIDC, combinada com a possibilidade de segregação de risco entre as cotas sênior e subordinada, torna esse veículo adequado para operações com diferentes perfis de risco e de investidores.

Além dos FIDCs, fundos de investimento em participações (FIPs) com mandato voltado para empresas em situação de crédito estressado representam outra alternativa relevante, especialmente para estratégias que envolvem a aquisição de participação acionária em companhias em processo de reestruturação. A regulação aplicável a esses veículos evoluiu significativamente nos últimos anos, com o objetivo de aumentar a transparência, fortalecer a governança e alinhar os interesses dos gestores com os dos investidores. Felipe Rassi observa que o aperfeiçoamento do arcabouço regulatório contribuiu para ampliar a confiança dos investidores institucionais nessa classe de ativos.
Como os fundos especializados estruturam suas estratégias de recuperação?
A estratégia de recuperação adotada por um fundo de crédito estressado depende fundamentalmente do tipo de ativo adquirido e das características jurídicas e financeiras de cada carteira. Para carteiras de NPL de varejo, as estratégias mais comuns envolvem cobrança amigável e extrajudicial, renegociação de débitos com devedores e, quando necessário, execução judicial das obrigações. Na avaliação de Felipe Rassi, a taxa de recuperação nesse segmento é fortemente influenciada pela qualidade das informações cadastrais dos devedores, pela existência de garantias e pelo tempo decorrido desde o evento de inadimplência.
Para créditos corporativos estressados, a estratégia de recuperação é significativamente mais complexa, exigindo a integração entre a análise financeira da empresa devedora, o acompanhamento dos processos judiciais em curso e a participação ativa nas negociações de reestruturação. Fundos com expertise nesse segmento frequentemente assumem posição de credor ativo, participando das assembleias de credores, questionando planos de recuperação que não atendam adequadamente seus interesses e, em alguns casos, propondo soluções alternativas que maximizem o valor de recuperação. Essa postura ativa distingue os fundos especializados dos credores passivos que simplesmente aguardam o desfecho dos processos.
Perspectivas de crescimento do mercado de crédito estressado no Brasil
O crescimento do mercado de crédito estressado no Brasil deve continuar nos próximos anos, impulsionado por fatores estruturais e conjunturais. Do lado estrutural, a maturação do mercado de capitais, o aumento da cultura de desinvestimento de carteiras por parte das instituições financeiras e o desenvolvimento de infraestrutura de dados para análise de crédito criam condições favoráveis para a expansão do segmento. Do lado conjuntural, o nível de endividamento das empresas brasileiras e a persistência de taxas de juros elevadas mantêm o fluxo de novos ativos estressados em patamares expressivos, alimentando o pipeline de oportunidades para os fundos especializados.
Conforme conclui Felipe Rassi, o desenvolvimento de plataformas de originação e negociação de carteiras de NPL, a entrada de gestores internacionais com experiência em mercados maduros de crédito estressado e o aumento da sofisticação dos investidores locais são tendências que devem acelerar o crescimento e a profissionalização do setor no Brasil. O mercado caminhe, portanto, para um nível de estruturação que favoreça tanto a eficiência das operações quanto a proteção adequada dos diferentes agentes envolvidos, incluindo devedores, cedentes de carteiras e investidores dos fundos.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
