Grandes empresas de tecnologia vêm reduzindo camadas de gestão, e Murilo Moura Alencar, board member e Tech, People & Game Strategist, examina que esse movimento tende a mudar a forma como equipes são organizadas e como carreiras são construídas no setor. Em setembro de 2024, o presidente da Amazon, Andy Jassy, anunciou em carta aos funcionários a meta de aumentar em pelo menos 15% a proporção de profissionais individuais em relação a gestores até o fim do primeiro trimestre de 2025.
A justificativa apresentada foi reduzir camadas, acelerar decisões e aproximar quem decide de quem executa. Veja, a seguir, o que está por trás dessa tendência, o que ela promete e quais riscos traz.
O que está mudando?
Durante anos de crescimento acelerado, muitas empresas de tecnologia criaram estruturas com várias camadas de gestão. Cada nova equipe ganhava um coordenador, cada grupo de coordenadores ganhava um gerente, e assim por diante. Em muitos casos, decisões simples passavam a depender de aprovações sucessivas.
A tendência atual vai na direção oposta. Organizações buscam estruturas mais horizontais, com mais pessoas por gestor e menos níveis entre a liderança e quem executa o trabalho. A promessa é ganhar velocidade e reduzir custos com coordenação. Outras gigantes do setor anunciaram movimentos semelhantes, o que indica uma mudança que vai além de uma única empresa.
Por que isso está acontecendo agora?
Parte da explicação é financeira. Depois de um período de juros baixos e contratações intensas, empresas passaram a buscar eficiência e cortar estruturas consideradas excessivas. Camadas de gestão, por envolverem salários mais altos, ficaram entre os primeiros alvos dessa revisão.
Murilo Alencar aponta um segundo fator: ferramentas digitais, incluindo inteligência artificial, assumem parte do trabalho de acompanhamento que antes ocupava gestores, como consolidar relatórios, acompanhar indicadores e organizar informações. Com isso, a função de gestão tende a se concentrar no que exige julgamento humano, como desenvolvimento de pessoas, resolução de conflitos e decisões difíceis.
Os riscos de achatar demais
Estruturas mais enxutas não são automaticamente melhores. Quando um gestor passa a liderar um número excessivo de pessoas, o tempo dedicado a cada uma diminui. Conversas individuais ficam mais raras, o desenvolvimento profissional perde atenção e problemas demoram mais para serem percebidos.
Há também impacto nas carreiras. Com menos posições de gestão, o caminho tradicional de crescimento, baseado em promoções para cargos de liderança, fica mais estreito. Na visão de Murilo Moura Alencar, empresas que reduzem camadas sem criar trilhas técnicas valorizadas correm o risco de perder especialistas que não enxergam mais para onde crescer.
Como fazer a transição com cuidado?
Reduzir níveis hierárquicos exige mais do que redesenhar o organograma. É preciso distribuir responsabilidades, dar mais autonomia às equipes e garantir que decisões possam ser tomadas sem depender de aprovações que deixaram de existir.
Também é importante preparar quem continua liderando. Gestores com equipes maiores precisam de práticas que tornem seu tempo mais produtivo, como comunicação escrita bem organizada, rituais de acompanhamento eficientes e delegação clara. Sem esse preparo, a promessa de velocidade se transforma em sobrecarga, e o gestor passa a ser o novo gargalo da equipe.
Menos camadas, mais clareza
A tendência de estruturas mais enxutas reflete uma busca legítima por agilidade e eficiência. Murilo Alencar comenta que seus resultados, porém, dependem menos do número de camadas cortadas e mais de como a mudança é conduzida.
Organizações que reduzem camadas com clareza sobre papéis, investimento em autonomia e caminhos de carreira bem definidos tendem a colher decisões mais rápidas e equipes mais engajadas. As que apenas cortam cargos, sem repensar como o trabalho é organizado, arriscam trocar burocracia por desorganização, com custos que aparecem mais tarde na forma de rotatividade e perda de conhecimento.
